
O Portal
Texto e Ilustração: Guilherme Silveira
Descendo o caminho para casa, como fazíamos todo dia, conversávamos tranqüilos. Os carros passavam acendendo aquela pesada penumbra que sempre dominava as noites mal iluminadas dali. Mas naquele dia algo era diferente, pesado. Quando chegamos ao ponto mais escuro do trajeto, Paulo disse para pegarmos um atalho:
– Me disseram que indo por aqui nós chegaremos bem mais rápido.
– Mas será que não é perigoso? – eu retruquei.
– Que isso, às quatro da madrugada um ladrão tem que ser muito desocupado pra ficar nesse caminho esperando alguém!
Depois disso resolvi ir, mesmo desconfiado. Nunca tinha reparado muito nesse caminho, mas agora eu podia ver, era asqueroso, realmente estranho, o que algo assim faria ali, no meio do nada? Um corredor de concreto, com uma ou outra bifurcação e alguns cômodos vazios, como uma vila abandonada, não fazia sentido... Súbito! Uma imagem vertiginosa tomou conta do lugar, nada mais existia, como um piscar de olhos... “você viu isso?” eu perguntei, após um instante sem resposta:
– Não sei bem... vamos logo – e mais nada.
Dali em diante o assombroso corredor não era mais o mesmo, por mais que o fosse... A cada passo eu me sentia observado, Paulo insistia em andar, andar como se nada estivesse acontecendo, talvez não estivesse. Por mais que não, eu sabia o que estava sentindo e vendo, ou achando, de porta em porta um novo rosto, o primeiro foi um bebê, estremeci, mas continuei, assim como Paulo, como se nada acontecesse. Um bebê, pálido, escondido, duvidoso, não queria que eu o visse. Uma criança, uma adolescente, era como se a mesma imagem, o mesmo local, se repetissem, mas anos depois, no mesmo momento. Eu não saía do lugar. Conforme os anos da garota iam passando, ela ia perdendo o medo, não ligava se a víssemos, mas com o tempo, com a idade, ela se escondia novamente, até que vimos a saída, e finalmente eu saí do lugar, próximo a sair da lama pesada.
Lá fora estava mais iluminado, mesmo sem ter iluminação alguma. Era o fim, e lá estava a última, velha, retraída, escondida, duvidosa. Eu continuava, tentava não vê-la, mas não adiantou, ela nos viu. Ainda não entendo nada disso, é como quando se assusta um animal recuado, ela atacou. Sacou notas e pequenos envelopes, e, finalmente, Paulo a viu. Quanto mais se aproximava, mais jovem voltava a ser. Paulo... não sei bem sua reação, sua feição, não tive tempo, paralisei, mas ele a aceitou, “é claro !”, foi a única coisa, ela o enfeitiçou, só pode ser isso. Ela o atacou, não sei bem como, mas atacou. Foi o fim pra ele, o tempo passou, em um segundo, assim como tinha passado pra ela. Lá estava no chão um bebê indefeso, lindo e um velho, morto, acabado.
Eu? Ainda não sei... não encontrei ainda, somente aquele mundo torto do começo, acho que vi demais, por mais que tenha tentado não ver.
(cc) Guilherme L. B. E Silveira
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