Por Rodrigo van Kampen
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É estranho se mudar de um quarto que o acolheu por mais de dois anos. Talvez até mais estranho do que se mudar de casa.
Porque o quarto, aquelas quatro paredes cuja principal característica é ter uma cama para dormir, é um canto único e exclusivo. Um espaço seu, para pendurar as máscaras ao menos por um instante antes do sono.
Como é que se conta a história de um quarto? Porque não adianta falar das paredes, do piso de azulejos, da janela e da porta. Um quarto também tem vida, toda a obra criada lá dentro, as idéias tantas que surgem e flutuam pelo ar como pernilongos em volta da luz.
Como bolhas de sabão as idéias se juntam, estouram, contém um arco-íris em miniatura. E é claro que o quarto ajuda a moldar as idéias, construindo um caminho para o vento, trazendo novos ares e varrendo embora o velho.
Talvez seja estranho se apegar a um quarto. Talvez as pessoas apenas se mudem e pronto. Novo quarto, novo amigo, novo esconderijo.
Mas, tal como aquele cantinho secreto onde se escondia do mundo por algumas horas, o quarto é eternamente vivo, mesmo que todas as paredes venham abaixo.
Restaram apenas os rabiscos. Desenhos e frases que foram sendo acrescentados com o passar dos meses, e ressignificados com os anos. Escritos na parede, porque pertencem àquele lugar, não a mim.
Ficaram as memórias.
E um quarto vazio.
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Balaio Branco
Revista de Histórias
(cc) Rodrigo van Kampen